Dois modelos perdidos no desfile da Prada

Em um apartamento sombrio, com poucos focos de luz, cheio de janelas e móveis geometricamente quadrados, eles invadem a passarela. A música é quase um conta-gotas e reforça o desajuste e o estranhamento da plateia com aqueles homens que mais parecem cabides enfiados em roupas quadradas e que passam e que passam e que passam… A Prada trouxe o desajuste do homem contemporâneo e o rigor com a forma na roupa como atmosferas para a apresentação da sua coleção de outono-inverno 2013/14, que aconteceu há poucos dias, durante a Semana de Moda Masculina de Milão.

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Em sua maioria, os modelos usavam calças mais curtas e secas, ajustadas ao corpo. Os tons escuros predominaram. Nos pés, todos vieram com sapatos ousadíssimos e pesados. Em tons vivos e com cadarços, todos estavam sem meias.

Na parte de cima, o grande destaque da coleção, os casacos eram mais curtos do que as camisas. E os sobretudos eram bem compridos. Fora alguns poucos xadrezes e listras, não havia estampas. As peças de uma cor só estiveram presentes na maior parte do tempo. O formato geométrico dos casacos remetia às formas das janelas projetadas na parede do cenário e aos móveis de Rem Koolhaas que complementaram o clima futurista, sempre associado ao excesso de geometrismo de suas peças.

No final das contas, o que Miuccia Prada trouxe para a passarela são peças que podem já estar dentro do seu guarda-roupas. E isso é ótimo. A estilista fez um desfile milionário, mas simples para passar uma mensagem contemporânea: a moda depende de quem a usa. Não é mais novidade para ninguém, muito menos para Miuccia, que a moda não dita mais o que se veste na rua. O fluxo se inverteu. A rua é quem dita o que será moda (convenhamos que isso é bem mais democrático).

Para além disso tudo, um fato chama a atenção nesse desfile: a escolha dos modelos. Em quase dez minutos de passarela homens bonitos, jovens, com seus corpos atléticos vão se sucedendo. A maioria com um cabelo indie e aquele velho franjão no rosto. De repente, no meio dessa fila indiana, surge um. Depois mais um. São dois. Dois homens normais, com rostos humanos, com cabelos mais raros, com linhas de expressão bem marcadas no rosto.

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Ao optar por colocar dois homens mais velhos e um pouco deslocados dos padrões atual de modelos, a grife nos permite parar e olhar ao redor. Se o cenário é futurista, se a moda é a eterna ode ao jovem, onde vai parar quem está passando dessa fase?

É hora de corrigir a rota, sugere Miuccia. Nem todos estão dentro do padrão e cada vez menos estão dispostos a serem descartados, a serem deixados de lado.

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É preciso fazer uma reflexão séria: o elogio ao jovem e ao belo não se sustentará por um longo período. A humanidade está envelhecendo. E quem chega lá não está mais disposto a se exilar, se esconder, durante essa fase da vida.

Quem envelhece hoje está mais a fim de aproveitar, de viver, de ir além do que as gerações anteriores foram. E a Prada, em um desfile que parece futurista e jovem, abre espaço e acolhe o que não é jovem, o que foge da efemeridade de um padrão que não se sustenta.

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Assista ao desfile da coleção de outono-inverno 2013/14
da Padra na Semana de Moda Masculina de Milão:

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